domingo, 29 de julho de 2007

Cena 02 - Afinal, o se pretende esconder da imprensa ?

PÓS-CIRÚRGICO – ( entrando ) esta é a única que encontrei.

LEDA - Essa caixa está ótima. Traga aqui. Vamos, anda logo. Temos muito trabalho ainda. Vamos conferir todos os objetos com a relação mais uma vez!

PÓS-CIRÚRGICO – Deixa que eu faço. Tem uns jornalistas vindo aí...

LEDA – Mas que hora mais imprópria!

REPORTER DOIS– ( entrando ) Supervisora Leda ! Como vão os achados históricos ?

LEDA- Perderam tempo vindo. Ninguém vai filmar os achados !

REPORTER UM – ( entrando com o Operador ) Operador, comece então a gravar a Supervisora falando...

LEDA – Vira essa câmara para lá! Se gravar meu rosto, sabe o que vai acontecer com você, senhor Operador ?

REPORTER DOIS - Calma Supervisora. O Operador foca a gente de costas. Pode confiar!

LEDA - Sou desconfiada sempre! Por mim não haveria mais televisão. Só transmissão por rádio!

REPORTER DOIS- O que a senhora tem contra a TV? Ninguém vai ver nossos rostos...

LEDA - E como vou ter certeza disso? Se olho para a objetiva....o que acontece ?.

REPORTER UM - Seria uma tragédia! Posso até ver a manchete: ( cantando em forma de rap )

a guardiã da lei vê- se refletida na objetiva...na objetiva vê-se da lei a guardiã...

REPORTER DOIS- ( cantando em forma de rap )
na superfície reflexiva da objetiva...

REPORTER UM - ( cantando em forma de rap )
a guardiã na superfície reflexiva refletida ...refletida a guardiã...

LEDA – NÃO BRINQUEM COMIGO! Mais respeito! E quer saber de uma coisa ? Se eu tivesse escrito a lei faria constar a eliminação de todas as superfícies reflexivas.

REPORTER UM – Se a Supervisora tivesse escrito a lei estaria muito velha...

REPORTER DOIS- Mas a lei já eliminou tudo que refletisse rostos das pessoas !

LEDA - E esse olhos aí no seu rosto ? E os dos animais? O olho dessa maldita câmara ? E as águas paradas...

REPORTER UM – Desculpe Supervisora, mas a senhora não deixa as águas ficarem paradas

REPORTER DOIS– Só faltava a senhora mandar arrancar os olhos dos animais, os nossos...EPA !

REPORTER UM – Será que alguém vai querer ver seu rosto, Supervisora ?

LEDA - E por que você olha para baixo quando eu falo ?.

REPORTER UM - Para não vê-la, mesmo por acaso...

REPORTER DOIS- E eu olho para o alto quando falo...assim também não vejo.

REPORTER UM - Mas e seus subordinados ?

LEDA – O que tem ? Certamente olham para baixo quando eu falo e para o alto quando eles falam...Por que essa pergunta idiota ?

REPORTER UM - Não ia perguntar isso... Essa conversa cansa a gente...Sabe, eu ia perguntar se eles podem nos mostrar esses objetos aí no chão ...

LEDA – Não podem ! Eles apenas manuseiam, sem fazer perguntas. Escutem bem! Não sou a Supervisora? A guardiã da Lei ? Então faço tudo de acordo com as regras. Meus subordinados não se atrevem a perguntar e falar sobre o que encontramos...eles sabem as conseqüências !


REPORTER DOIS– Você pode focalizar aqui no chão, perto da caixa ?

LEDA – Ei pode ir saindo daí já ! E você pode desmontar esse tripé porque não vai ser possível mostrar os objetos! Além de tudo vocês são surdos..

REPORTER DOIS– Mas Supervisora precisamos mostrar !

LEDA – Saia de perto dessa caixa! Tira essa câmara dai, já falei !

REPORTER UM – Mas que mal tem mostrar essas coisas aqui ?

LEDA – Pare de mexer neles. Vamos jogue dentro da caixa. Eles estão conservados porque aqui na caverna é muito frio.

PÓS-CIRÚRGICO – Supervisora Leda, preciso falar com a Senhora.

LEDA – Não me interrompa! Não percebe que estou falando com os jornalistas ? E voce ai ! Saia já de perto dessa caixa! Não vê que está quebrada ?

REPORTER UM – Pois é, está quebrada mesmo...Operador, me dê isso. Olhe que interessante. ( cantando em forma de rap )

“ O mal Não é o entra pelos olhos mas o que sai pela boca! “
Se o que sai pela boca é o mal o que entra pelos olhos é...

LEDA – Pare com essa cantoria !

REPORTER UM - Autor, deixa eu ver, não tem...Aqui está o título ! “ A Bíblia no Ano 2010...

LEDA – Me dá esse livro! Não se pode TOCAR nelas ! TOCAR, ENTENDEU ? Pronto! Dentro da caixa é mais seguro

PÓS-CIRÚRGICO – Supervisora Leda, preciso falar! È urgente !

LEDA – Mas que falta de educação ! Isso a cirurgia não cura !

REPORTER DOIS– Aqui a gente não consegue nada. Vamos , desarme o tripé. É melhor procurar o Sábio Mutt . Vamos ver se descobrimos esse segredo...

LEDA – Nada de entrevistas ! Saiam daqui, tenho que trabalhar.

PÓS-CIRÚRGICO – Supervisora Vera, parece que está faltando o rolo.

LEDA – Por que está cochichando ? Vamos, fale alto !

PÓS-CIRÚRGICO – FALTA O ROLO !

LEDA – O rolo ? Fale baixo, estúpido !

PÓS-CIRÚRGICO – Mas a senhora disse para falar alto !

REPORTER UM – Diga, amigo, que rolo é esse que falta...

LEDA – Silêncio! A boca não solta palavras que dão arrependimento depois!

PÓS-CIRÚRGICO – Não falei rolo...e sim BOLO ! B - O - L - O !

LEDA – Desculpem senhores, mas precisam ir. Estou com pressa. Tenho um probleminha para resolver.

REPORTER UM – Probleminha sério ? O do bolo, talvez ?

REPORTER DOIS- Então, Supervisora, para encerrarmos...

LEDA – Encerrarmos o que ? Não vai haver entrevista nenhuma! E por segurança, Operador, me dá essa câmara aqui. Vou pisar nela!

OPERADOR - Não disso, Supervisora! Também tenho ética. E preciso dela para trabalhar! Que medo de uma simples objetiva !

LEDA - Quem tem medo? . Quem deve ter medo é você ! Se me viu através da objetiva eu o denuncio e aí vem a cirurgia.

OPERADOR – Calma, Supervisora ! A câmara não gravou você!

REPORTER UM – Meus caros, melhor ir andando, senão vamos ser culpados pelo ...
B –O – L - O que desapareceu...

LEDA – Um momento, Senhores. Pensando melhor...tenho uma surpresa para vocês ! Esperem aqui. E você me dê o texto da Lei (sai).

sábado, 28 de julho de 2007

Cena 01 - Superfície Reflexiva - o inicio de tudo!

Aguarde, por favor. Agora não posso falar! Estou sendo vigiado...

NA CAVERNA

VALDO: Me ajuda aqui.

PÓS-CIRÚRGICO: Não ajudo. Você não está seguindo as regras!

VALDO - Venha me ajudar. Você é um pós cirúrgico, tem que me obedecer!

PÓS-CIRÚRGICO - Só obedeço o manual. Se eu fosse você faria a mesma coisa.

VALDO - Não vou seguir manual nenhum. Quero me arriscar...Que peso !

PÓS-CIRÚRGICO– Olha aí, derrubou a caixa... Eu avisei !

VALDO – Você foi o culpado. Não quis me ajudar. Não tenho a força que você tem.

PÓS-CIRÚRGICO– Sigo as regras...Você quer inventar, ser diferente e se dá mal.

VALDO – Chega de papo e me dá o lenço para limpar essa poeira do rosto. Eu ser como você ? Nunca! Só em um certo sentido sou parecido...

PÓS-CIRÚRGICO: Parecido comigo ? De jeito nenhum!

VALDO - É, depois da cirurgia você ficou diferente.. mas eu, mesmo sem cirurgia me sinto preso como você! Essas regras me prendem, me amarram...

PÓS-CIRÚRGICO: Valdo, você deve estar me olhando...

VALDO – Me conta, então dói mesmo quando você olha um rosto ?

PÓS-CIRÚRGICO: Pare de me olhar!

VALDO - Mas não estou olhando. Estou devolvendo o lenço. Posso olhar você de frente, não posso? Claro que posso!

PÓS-CIRÚRGICO– Ai! Tira essas mãos do meu rosto !

VALDO – Não precisa me esmurrar...Dói muito mesmo. Que coisa absurda! Posso ver meu rosto apenas com as mãos...

PÓS-CIRÚRGICO - Chega de falar nesse assunto. Vamos arrumar a bagunça que você provocou.

VALDO – Me conta! Você desrespeitou a Lei e por isso sofreu a cirurgia ?
PÓS-CIRÚRGICO – Não vou contar nada.

VALDO – Então você já viu um rosto de frente, não viu ?

PÓS-CIRÚRGICO – Você é um idiota? Não entende que não quero lembrar disso? É um idiota mesmo! Tanto trabalho para arrolar o material, encaixotar e por sua causa vamos ter que fazer de novo...Não fique aí parado, não vai querer que eu pegue tudo isso sozinho ! Pega aquele rolo dali do chão. Por que só eu tenho de recolher esses objetos? Ainda mais que foi você que fez cair da caixa.

VALDO – Nem um pós cirúrgico quer me contar como é ver um rosto de frente... Ei ! Olha esse rolo...está quase aberto...deixa eu dar uma espiada...

PÓS-CIRÚRGICO– Por que jogou o rolo de novo no chão ? Ainda está aberto, dá para ver que é...Pare de tremer. Parece que levou um choque do rolo ! Larga de meu braço! Ah! É uma imagem....de uma jovem em atitude suspeita...Interessante...olhar assim não me dá dor de cabeça. Mas é melhor você não ver! A Lei não permite !

VALDO – A Lei? A Lei não diz nada sobre olhar rostos dessa forma...Por que não posso olhar?

PÓS-CIRÚRGICO– Você vai ter problemas...olhar esse rosto, esses lábios! Estou avisando...

VALDO – E a sua bunda eu posso olhar? Posso? Por que posso olhar bundas e não posso olhar rostos?

PÓS-CIRÚRGICO - É bom não olhar!

VALDO - Por que? O que você vai fazer? Vai me bater?

PÓS-CIRÚRGICO - Não! Você é um fraco! Vou denunciar você...

VALDO - Ei pare com isso! Calma! Pronto, não estou olhando...Olhe aí , estou enrolando de novo e lá vai de novo para o chão...

PÓS-CIRÚRGICO Vou chamar a supervisora Leda.

VALDO - Mas por que? Vai me acusar? Espera aí, vamos com calma!

PÓS-CIRÚRGICO - Me larga! (sai)

VALDO – Estúpido! Uma olhadinha rápida que mal vai causar ?
(cantando em forma de rap)

meus lábios, posso sentir com as pontas dos meus dedos.
mas eu quero sentir esses lábios...

LEDA – (de fora) ESSE VALDO NÃO SABE SEGUIR INSTRUÇÕES? ONDE ESTÁ ELE ?

VALDO – (cantando em forma de rap)
vejo você depois! deixa enrolar e esconder você
debaixo do macacão. puxo esse zíper e você fica
aqui junto do meu peito, quentinha
...

PÓS-CIRÚRGICO– (de fora) ALI NAQUELA ENTRADA À DIREITA.

LEDA – (entrando junto com o Pós - Cirúrgico ) E então, o que foi agora? Por que essa caixa está assim?

VALDO – Derrubamos a caixa......

PÓS-CIRÚRGICO– Ele derrubou...Quis tentar um método novo!

LEDA – Vá buscar uma caixa nova! Você não. (Sai PÓS-CIRÚRGICO)
Você fica aqui e responda mais uma vez...Por que você não segue as instruções? Não sabe que estou ocupada com as escavações?

VALDO - Não sigo porque ninguém me explica por que!

LEDA - Você não tem que saber os motivos! Sempre foi feito assim e continuará sendo !
Vamos, venha me ajudar a conferir!

VALDO - Não precisa conferir! O material já estava todo arrolado, é só encaixotar e lacrar de novo!

LEDA - Aqui sou eu quem dá as ordens! Venha aqui. Vamos conferir os objetos com a listagem.

VALDO - Mas eu apenas derrubei a caixa...

LEDA - Não quer conferir? Será que você está me escondendo alguma coisa?

VALDO - Não Supervisora, é que agora estou muito cansado...deixa eu ir embora ?

LEDA - Tudo bem, mas tem uma condição...

VALDO – Lá vem você me tentar ....

LEDA - Como castigo por não seguir as ordens, venha até aqui nas minhas costa e me dê um abraço bem apertado...

VALDO - Agora não dá! Estou todo empoeirado...

LEDA - O que está acontecendo? Toda hora, até sem motivo, você me quer por perto... você ainda me quer bem perto, não é ? Está bem, então eu abraço você ...

VALDO – Supervisora...mais tarde....

LEDA – Ai! Mais cuidado ! Você quase me machucou...Está bem. Eu cuido da conferência.

VALDO - Não precisa conferir, já disse. Mas se você quiser eu faço isso depois !

LEDA - Não queria descansar? Pode ir. Mas depois conversamos...Vai ! E procure descansar bastante...(VALDO sai)