DOUTOR – Ponham ele aqui nesta cadeira. Isso. Amarrem os braços e as pernas dele.
OFICIAL – Pronto aí mais um embrulhado para presente. Prepare ele para o interrogatório.
DOUTOR – Para o interrogatório ? Que perda de tempo. Vamos logo para a cirurgia !
TENENTE – Oficial Sônia, se o Doutor fizer a cirurgia aí que ele não vai delatar os outros desordeiros.
OFICIAL – Cumpra as ordens da Supervisora ! Interrogatório, certo ? E vai ser bem demorado. Aumente a dose (saem ela e o TENENTE ).
DOUTOR – Muito bem! Vamos preparar o soro primeiro. O anestésico para a cirurgia deste jovem fica para depois. Vou usar esta solução pois gosto muito dela e posso fazer um pouquinho para meu uso pessoal.
VALDO – Ei você aí, me tire daqui..
DOUTOR – Já voltou a si ? Preciso aumentar a dose. Esse parece que se recupera muito rápido. E vou aumentar um pouquinho para mim, por que não ?
VALDO – Você é surdo ? Falei para me desamarrar...
DOUTOR – Meu rapaz, não dá para eu fazer isso. Vê esta seringa ? Tem aqui dentro um soro muito bom! Eu, particularmente, gosto muito dele. Tanto é que vou aplicar um pouco em você e um pouco em mim.
VALDO – Para que serve esse soro ? Você é medico ? O que vai fazer comigo ?
DOUTOR – Sou um médico, digamos, especial. Pois de tanto precisar cuidar dos meus amigos pacientes para o interrogatório, precisei, digamos, ficar também muito amigo deste soro.
VALDO – Que é isso ? Um doutor drogado não vai enfiar essa agulha em mim !
DOUTOR – Que é isso, digo eu ! Com medo de injeção ? Mas não se preocupe. Em você a dose vai ser maior, para durar mais. A minha é só para dar mais emoção no meu trabalho...
VALDO – Mas o que esse soro vai provocar em mim ? Ele vai me sedar para a cirurgia ?
DOUTOR – Nada disso. Ainda não é a cirurgia. É a fase do interrogatório. Este soro vai fazer você ficar mais cooperativo. Não tem nada a ver com a cirurgia, infelizmente. Ela é ótima. Sabe o que mais eu adoro ? Fazer cirurgias ! Você sabe como ê ?
VALDO – Não me conte pois deve ser a pior coisa que pode acontecer para alguém como eu..
DOUTOR – Assim como você como ? Para tudo mundo é muito bom !
VALDO – Mas para mim não é. Eu adoro ser como sou. Não quero sofrer nenhuma cirurgia e ficar como o pós cirúrgico lá na caverna. Não me conte nada sobre essa cirurgia !
DOUTOR – Então eu vou contar! Depois do sedativo, eu corto aqui atrás do pescoço...
VALDO – Ai! Tira essa mão gelada daí!
DOUTOR – Logo aqui tem um nervo. Está sentindo ? Dói bastante, não ? Pois eu faço uma secção nele e uma ligação com este outro nervo. E sabe o que acontece ?
VALDO – Não quero saber nada ! Solte minhas mãos para eu tampar os ouvidos !
DOUTOR - E daí em diante sua cabeça não consegue mais ficar firme. O seu queixo empurra sua cabeça para cima ou para baixo. Você nunca mais pode olhar para a frente.. Sabe por que ?
VALDO – Por favor, pare com isso, não quero ouvir nada !
DOUTOR – Que bom que posso contar então! Com esse nervo ligado a este outro aqui atrás qualquer tentativa de deixar o queixo na horizontal, causa uma dor danada ! Ah! Eu sofro tanto quando escuto os gritos dos pós cirúrgicos nos primeiros momentos !
VALDO – Então eles tentam olhar o rosto de alguém de frente ? Que horrível invenção!
DOUTOR – Não sei por que ninguém avisa a eles para não fazer isso que vai doer.
VALDO – Escuta, Senhor Doutor, eu não posso sofrer essa cirurgia. Então vamos fazer um acordo ?
DOUTOR – Um acordo ? Aqui só se cumpre os acordos da Supervisora. Se ela diz sim é sim. Se ela diz não é não ! Sabe o que ela disse hoje ?
VALDO – A meu respeito ? Não quero ouvir !
DOUTOR – Então não vou falar !
VALDO – Por favor, fale. Fale sim ! Foi alguma coisa a respeito da cirurgia ?
DOUTOR - Hoje ela me disse, com aquela voz forte: ( canta em forma de rap )
“Doutor, prepare este jovem
para o interrogatório.
Mas não se esqueça.
Tem que demorar bastante
para terminar
o efeito do soro “.
VALDO – QUERO SORO É ESSE ? VAMOS CONVERSAR PRIMEIRO !
DOUTOR – Conversar ? Só se for com ela. Ela manda e eu cumpro. Quando ela fala assim é por que tem um bom motivo...INFELIZMENTE, não é o bastante para fazer já a cirurgia.
VALDO – Ela vai me torturar ? Então não tem cirurgia ?...Mas depois de eu delatar meus amigos, vem a cirurgia, não é ?
DOUTOR - Gostaria de continuar nossa conversa tão amável. Mas preciso usar o seu braço e depois também o meu. Com licença, sou uma pessoa educada, sabe ? É uma delícia esse soro, não ? Está sentindo o sangue formigar ? Ainda não ? Não se preocupe. Ele começa lá no pé e vai subindo, subindo...até chegar na sua mente e então é uma alucinação, uma bela alucinação! Vamos contar juntos: um, dois, três, quatro...por que não está contando, meu rapaz ?
VALDO – Não vai adiantar a tortura. Pode dizer a supervisora que ela vai perder o tempo dela comigo. Não vou denunciar ninguém!
DOUTOR – Pelo que noto, a droga ainda não chegou a sua língua...não quer contar ? Não tem importância. Conto eu mesmo: doze, treze, catorze...
VALDO – Não vai adiantar nada me manter aqui. Meus amigos virão me libertar. .Estou ficando tonto. Mas é uma tontura diferente. Esta não me deixa feliz...
DOUTOR – Vinte e cinco, vinte e seis...para mim já está fazendo efeito...não posso continuar contando....
VALDO – Quem desligou a luz ?
DOUTOR – Ninguém desligou. É o começo do efeito. O choque. Agora você vai dar risada até sem motivo. Eu também...
VALDO – (canta em forma de rap)
LINDO, LINDO ! Estou voando, sobrevoando o mar, as ondas...chegando à praia ...
DOUTOR – Essa é a fase do delírio. Pena que dura pouco...
VALDO – (canta em forma de rap)
Vejo crianças brincando, parece que numa praia
olhando sempre para frente, olhando para longe...
DOUTOR – Pare de dar risada, meu rapaz. Está me atrapalhando...Essa droga é muito boa mesmo, não é ? Se não fosse não estaria viciado nela...MAS ME DÁ MUITA SEDE
(canta em forma de rap)
NESTE DESERTO ! Estou...me....arrastando...no...chão...
do...assoalho...da....sala de casa!
VALDO – (canta em forma de rap)
Agora as crianças fazem um castelo de areia.
As ondas vão e vem. E o castelo desaba...
DOUTOR - (canta em forma de rap)
Também eu fazia castelos mas eram de cartas
de baralho. Depois vinha minha maninha
e com um tapa destruía tudo!
VALDO – (canta em forma de rap)
É preciso que as crianças aprendam
a surfar. Nada de castelos! É preciso ser flexível.
Mudar com as ondas...
DOUTOR –(canta em forma de rap)
A malditinha me tirava as cartas....
depois punha as cartas como pedras de dominó
uma perto da outra e depois aquela mãozinha
gorda derrubava a primeira, e a primeira
derrubava sozinha a segunda...
VALDO – (canta em forma de rap)
Para não morrer no fundo do mar
é necessário surfar...para não morrer
debaixo das botas pretas dos seguranças
é necessário correr...
DOUTOR – (canta em forma de rap)
Até que tudo caia. E aí eu enchia
ela de pancada, mesmo que para isso
tivesse que ficar de frente para ela!
VALDO – de frente para ela? De frente? Então o Doutor via os lábios dela.
DOUTOR - Já acabou a minha alucinação ? Cada vez acaba mais depressa...preciso de outra dose...
VALDO – Você não me respondeu...Que sede que estou agora...quero água !
DOUTOR – Acabou a sua viagem também ? Preciso fazer sua dose mais forte...
VALDO – Você batia em sua maninha e olhava de frente para ela ? Vamos responde !
DOUTOR – Deixa de ser besta. Não via nada na raiva, não via nada! Pensa que sou como você? Um pervertido? Olhando esses rostos ? Essas partes proibidas? Vou lhe aplicar mais esta dose. Vamos, vá se preparando para falar...quantos iguais a você, estão metidos nisso? Não adianta esconder! ! E esta dose, adivinha para quem é ? Esta aqui é para mim....
VALDO - Não vou contar ! NÃO VOU CONTAR NADA ! Eles não são culpados! Eu sim, eu sou culpado! Envolvi eles todos!
DOUTOR – Então eles não queriam ficar naquelas posições? Não queriam, é? Mas ficaram ! Como você obrigou a eles, seu tarado?
VALDO – Eu não obriguei ninguém a nada! Eles viram que eu me abraçava, que eu tocava meus lábios, que eu sorria...Já ficou escuro de novo...
DOUTOR – Para! Para com isso! Não quero ouvir mais nada!
VALDO – (canta em forma de rap)
E era muito bom! Me sentia bem acariciando minha pele.
Pele com pele. E era melhor ainda acariciar outra pele
pele que não a minha!
DOUTOR – Para! PARA ! Cala a boca, seu sádico !
VALDO – (canta em forma de rap)
Era melhor que sexo! Era como um lago de águas tranqüilas!
DOUTOR – (canta em forma de rap)
Você também estava tão tranqüila !
Escuro, muito escuro...Maninha, maninha, não queria
te matar! Porque essa mãos gordinhas
desordenam tudo o que eu faço? Tira essa mãozinha
quente de cima de mim...Tira, não agüento mais!
VALDO – (canta em forma de rap)
Os lábios, os lábios! Entreabertos,
uma fileira de dentes brancos em cima.
Outra em baixo! Perfeitos, como um colar de pérolas!
Seus lábios no meus! Os meus beijam os seus!
Nossas salivas se misturando...
domingo, 2 de dezembro de 2007
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